INTEGRAÇÃO É CHAVE NO AVANÇO DO CELULAR

jornal Valor Econômico 05/10/2009 - Ana Luiza Mahlmeister
Ainda há um longo caminho para que os telefones celulares substituam os cheques e cartões de crédito e débito, mas o uso do aparelho como meio de pagamento cresce em todo o mundo. No Brasil, vários projetos piloto apontam para o celular como carteira eletrônica: hoje são 160 milhões de linhas móveis no país, mais do que o número de contas bancárias. Por enquanto a aposta está nas compras de baixo valor, mas a popularização de aparelhos como o iPhone, Blackberry e smartphones mais sofisticados mostram que há espaço para operações complexas, com a popularização das transferências de valores.
O celular permite fazer compras pelo telefone e pela internet com mais segurança, pois não é necessário passar o número do cartão de crédito. No futuro os lojistas poderão prescindir dos caros leitores de cartão, substituídos por um telefone móvel com chip transmissor de dados. O mobile payment também faz a inclusão digital de segmentos hoje fora do radar dos meios de pagamento tradicionais como as barracas de feira, cooperativas de taxis, ambulantes e comércio delivery. “A tecnologia está pronta. Falta a padronização e a definição do modelo de negócio para ganharmos escala”, diz Raul Francisco Moreira, executivo da diretoria de cartões de crédito do Banco do Brasil que participa do 4º Congresso Brasileiro de Meios Eletrônicos de Pagamento, nos dias 14 e 15 de outubro, em São Paulo.
Para Moreira o mercado brasileiro vive um momento propício para integrar toda a cadeia de valor dos meios de pagamento: bancos, operadoras de cartão e operadoras de telecomunicações. “Será necessário um consenso para a estruturação de uma plataforma que deve ser multibandeira, multibanco e multioperadora para conseguir a escala necessária”, afirma.
As operadoras de cartão de crédito começaram um movimento para integrar mobilidade às suas operações. Em agosto a Visa anunciou o Visa payWave com tecnologia Near Field Communication (NFC), que permite a transmissão e recepção de dados entre dispositivos próximos. Um projeto piloto conta com 200 portadores de cartão de crédito Visa do Banco do Brasil e Bradesco na Grande São Paulo e Brasília, com chip NFC em um aparelho da Nokia vendido pela Claro. Por enquanto, o recurso do pagamento móvel está no aparelho e não no chip da operadora.
O usuário solicita a integração do número do seu cartão ao número da linha do celular e quando o lojista digitar o valor da compra no leitor convencional de cartões (POS) aproxima seu aparelho móvel com NFC em cerca de 10 centímetros de um terminal fixo, também dotado de chipset NFC e interligado ao POS. O recibo é emitido automaticamente e a transação efetuada.
Os terminais NFC estão disponíveis em bilheterias de cinemas e caixas de algumas redes de restaurantes fast-food, tendo como limite máximo de R$ 100 por transação. “Nossa estratégia será ampliar o relacionamento com os clientes com o envio de alertas de promoções em estabelecimentos credenciados”, afirma Percival Jatobá, diretor executivo de produtos da Visa.
O Banco do Brasil oferece outros serviços de mobile banking como sistema de consultas e transferências via celular e o SMS banking de informações para o cliente. “Nas três modalidades temos 800 mil usuários”, diz Moreira. Em 2010, o Banco do Brasil espera alcançar 1 milhão de clientes usando serviços de mobile banking superando 40 milhões de transações.
A Claro, que oferece serviços em parceria com diversos bancos, tem experiências com as tecnologias SMS, Java, WAP e NFC. “O SMS já tem escala, é fácil de usar e tem aceitação do usuário”, afirma Fiamma Zarife, diretora de serviços de valor agregado da Claro.
A Vivo e a administradora de cartões de crédito Itaucard anunciaram parceria para pagamentos via celular onde o assinante solicita à central de atendimento da Itaucard a associação de seu número ao cartão. A fase piloto conta com 60 lojas credenciadas em São Paulo e Rio. O usuário digita o número do telefone no ponto de venda (terminal POS) e o sistema gera uma senha randômica, válida somente para aquela transação, e a envia, via SMS, ao celular do usuário. O comprador digita essa senha no POS, finaliza a compra e a fatura é incluída no cartão de crédito. “Hoje o sistema exige POS, mas no futuro vislumbramos uma oferta para pequenas e médias empresas que não trabalham com cartões”, diz Maurício Romão, diretor de parcerias financeiras da Vivo.
A Oi é a operadora mais experiente em mobile payment, fruto de uma parceria com a financeira Paggo. Lançado há três anos, o Oi Paggo está em 21 municípios e tem 1 mil lojas credenciadas. O sistema elimina a utilização do POS e depende de senha pessoal do usuário para a finalização da transação. Para usar o serviço, o aparelho Oi do lojista deve estar programado para iniciar a transação com a Paggo, informando o valor da compra e o número do telefone Oi do consumidor. A mensagem será processada na Paggo e o valor enviado ao cliente com os dados da compra para confirmação. Automaticamente, o lojista e o cliente recebem mensagem em seus aparelhos comprovando a realização da compra, que é finalizada com a digitação, por parte do consumidor, de uma senha pré-cadastrada. A Oi fica com 2,99% sobre o valor da transação.
“Recentemente fizemos uma pesquisa entre usuários que apontou que 72% dos entrevistados acham o Oi Paggo mais prático que os cartões tradicionais e 77% o acham mais seguro”, afirma Roberto Rittes, diretor de meios de pagamento da Oi. A operadora tem 200 mil clientes habilitados no Oi Paggo usado principalmente em pequenas lojas, postos de gasolina, comércio ambulante e feiras. “Nossa rede de aceitação é diferenciada. O sistema é popular em lugares onde o cartão não funciona ou funciona de maneira precária”, diz Rittes. Outra frente são as lojas de e-commerce, como a Americanas.com. “A grande vantagem é que o consumidor não precisa revelar o número de seu cartão de crédito, principal obstáculo para compras via Internet”, diz Rittes.
Facilitar o pagamento da entrega em casa também é a aposta da empresa de vale-refeição Ticket , que lançou o Ticket Restaurante Mobile. A empresa distribuiu 25 terminais em seis estabelecimentos, permitindo ao motoqueiro levar um celular ao invés de POS wireless. “A meta é a distribuição de mil celulares em 500 lojas até 2010″, ressalta Gustavo Chicarino, diretor de estratégia, marketing e produtos da Ticket. A estratégia, por enquanto, não é a substituição dos terminais fixos. “Hoje a transação no aparelho móvel é mais lenta que no POS (45 segundos no terminal móvel ante 15 segundos no fixo), mas no futuro isso não será obstáculo”, afirma o executivo.
O piloto da Ticket funciona na rede Fran´s Café, China in Box e Pizzaria Speranza, entre outros.
Outro segmento promissor é o de taxis. A softwarehouse Wappa oferece há quatro anos o Wappa Taxi que atende 82 cooperativas com 10 mil taxistas.